Interessante como temos dificuldade de entendimento entre os sexos. É impressionante como uma mesma mensagem pode ser interpretada de maneira completamente diferente quando lida por um homem ou por uma mulher. Assim como aconteceu com a artista plástica e escritora Sophie Calle com o e-mail que recebeu e que acabou ficando célebre (leia detalhes, no texto "O dia internacional do homem", aqui no blog, link na coluna lateral em "Temas diversos"), também recentemente aconteceu comigo, quando ao comentar com amigos (de ambos os sexos) sobre o que poderia haver nas entrelinhas de uma mensagem que recebi por e-mail, e a tal mensagem deu margem a interpretações tão diferentes entre homens e mulheres que, literalmente, "embasbaquei".
Pausa para reflexão – quando se está sozinho, estamos em geral abertos para novos relacionamentos e, apesar de "quieta no meu canto", no sentido de não estar desesperada à cata de um relacionamento, ao contrário de muitas mulheres que conheço (se acontecer, ótimo, se não, vou curtindo minha vida, sozinha mesmo, com muito prazer), não é a primeira vez que sou interpelada por algum espécime do sexo oposto, tentando algum tipo de contato, ou diretamente, me pedindo o número do meu celular, ou indiretamente, deixando bilhetes nos lugares mais inusitados (na porta do meu carro, ou literalmente me "cercando" na rua para tal intento),
e... bem, era de se esperar algum contato mais estreito tal o empenho dos tais fulanos em se comunicar comigo, mas na prática não sei o que acontece, ou simplesmente não ligam ou, se ligam ou mandam e-mails, são quase sempre dissimulados, com uma conversa dúbia incapaz de se entender as entrelinhas,
como foi o caso atual, pois num passado não muito distante, o sujeito literalmente "afanou" o número do meu celular com um conhecido em comum, para então marcar um primeiro e único encontro, para só agora (quase um ano depois) me mandar este tal e-mail prá lá de enigmático (mas diferente da escritora Sophie Calle que divulgou o nome do remetente do e-mail que recebeu, eu "revelo o milagre mas tenho o cuidado de preservar o santo").
Assim, já calejada, antes de responder à mensagem do tal fulano, comentei inicialmente com três amigas o que elas achavam que a mensagem queria dizer, e todas elas sem exceção a interpretaram do mesmo jeito, e então me orientaram como eu deveria responder à tal mensagem, e assim, seguindo o conselho delas (detalhe, uma delas é terapeuta de casal), mandei de volta interrogando o por quê da tal mensagem (há muito tempo não tinha contato com o sujeito, e a minha pergunta era pertinente, pois o obrigaria a explicar melhor qual o motivo daquele novo contato, depois de tanto tempo de ausência, após ter "surrupiado" o número do meu celular que levou a um primeiro, derradeiro e único contato no passado).
Quando, para minha surpresa e espanto, recebo uma resposta totalmente "blasé" do fulano, dizendo tratar-se de "uma brincadeira", e o mesmo foi se esquivando, com comentários vagos, e terminou desejando-me um "feliz natal" prá lá de antecipado. Não entendi nada, afinal, como disse, eu o tempo todo quieta no meu canto, me cutucam e depois não querem uma resposta à altura??? Indignada, mandei uma resposta malcriada: "quanto mais tento entender os homens, mais fácil acho lidar com o meu cachorro (que eu nem tenho)".
Mas, interessante foi quando comentei com dois amigos homens sobre a tal mensagem (após a resposta "blasé" do fulano), e fiquei estarrecida, pois a opinião dos dois amigos foi completamente diferente das três mulheres. Eles interpretaram que a minha resposta (que foi uma dica das mulheres, e como disse, uma delas psicóloga) tinha deixado o sujeito na defensiva, daí a resposta "blasé" do fulano, que foi "uma defesa da parte do mesmo para não se comprometer", e vieram com "zilhões" de teorias de que "eles, os homens, estão na defensiva com as mulheres", porque nós "nos tornamos muito independentes e assustamos o sexo oposto".
Por que isso acontece? Essa dificuldade de comunicação é a grande razão dos problemas de relacionamento entre os sexos. A minha resposta "quanto mais tento entender os homens..." gerou uma revolta no fulano, que o fez revidar, e só assim assumiu uma postura menos "blasé", e a minha provocação rendeu bons frutos porque rolou um papo que deveria ter acontecido tempos atrás, mas na época o fulano simplesmente "sumiu do mapa" e agora surgia, de repente, das cinzas, e de novo, se eu não o tivesse provocado, teria de novo "sumido do mapa", de novo sem explicações.
Ou seja, se não fosse a minha "provocação do bem" (não é a toa que sou "adorável anarquista"), dizendo "entender mais os cachorros (que eu nem tenho) que os homens", novamente ficaria o desentendimento no ar, cada um seguiria o seu caminho com um pensamento errôneo um do outro.
Qual a lição aqui aprendida? Para mim, nenhuma, porque sempre fui adepta às "cartas na mesa", não gosto de nada pendente, enquanto não disseco todo um mal entendido com alguém, não consigo mais ter uma relação sincera e saudável com aquela pessoa (seja no campo pessoal, profissional, familiar).
Para mim, mal entendidos e/ou desentendimentos se resolvem com conversas sérias, e não com frases "blasés", ou fingindo que não houve nada, ou pior, se afastando como fez o fulano na época. Se desistiu após o primeiro encontro (não houve um desentendimento direto, mas sim um mal entendido criado por outrem), por que então o e-mail enigmático depois de tanto tempo??
Por isso, "discutir a relação" é, e sempre será para mim, primordial em qualquer relacionamento, seja relação de casal, de trabalho, de amizade, de família. "Discutir a relação" é vital para um relacionamento saudável, e uma prova da benesse disso é o reatamento de uma relação incipiente que estava até então "suspensa no ar" e que ainda gerou esse texto no meu blog. Não é o máximo a comunicação, quando realmente ela existe?
"Pior que um não é a incerteza do talvez". Gosto de homens decididos, que não têm medo de ousar, mesmo se for receber um não. Mas o que se vê na maioria das vezes são homens em geral dissimulados, jogando pseudo cantadas e/ou piadinhas de duplo sentido (típicas de "quem joga verde para ver se colhe maduro"), e do nada pedem o nosso celular (sem mesmo ter havido sequer um flerte da nossa parte) parecendo sempre interessados, dizendo que vão nos ligar para marcar um programa, ou um cinema, e depois... nada. Se não pretendem ligar, então por que insistem com promessas que não vão cumprir??? Detesto homens indecisos, dissimulados, pois parecem querer brincar com os sentimentos alheios.
Depois querem reclamar que somos nós mulheres é que nos "fazemos de difíceis" (eu até já liguei para um deles para saber qual era a do fulano, já que ele pegou o meu número e não ligava nunca), mas são eles que não têm coragem de "botar a cara a tapa", e a desculpa é que estamos muito independentes???!!!
O que tem a ver independência com relacionamento??? Levar um fora faz parte do jogo, eu nunca deixei de me mostrar abertamente (talvez seja esse o problema, pois aviso logo que dou e exijo exclusividade nos relacionamentos e não aceito traições, etc, e talvez isso afugente os coitados). Mesmo que eu leve um não pela frente, me faz bem saber que não deixei uma oportunidade passar, e isso vale para tudo na minha vida, tanto na vida pessoal, familiar, profissional, enfim em tudo na minha vida.
Mas tenho que admitir que numa sociedade contemporânea vulgarizada pela falta de valores morais e éticos, em que a virgindade tornou-se mercadoria de luxo, o mercado fonográfico só vende músicas de corno ou de cunho pornográfico, não é de se estranhar que cada vez mais os homens estejam temerosos e reclusos em seus sentimentos.
A carência de grandes artistas contemporâneos na música parece também refletir as carências afetivas dos dias atuais. Num passado recente, artistas como Fagner, Gonzaguinha e Zé Ramalho expunham abertamente os sentimentos, mostravam a importância de se abrir, de se mostrar, enfim, de não ter medo de viver: "Só uma palavra me devora, aquela que o meu coração não diz, só o que me cega, o que me faz infeliz é o brilho do olhar que eu não sofri" (Jura secreta, de Raimundo Fagner). "Eu desço dessa solidão,...há meros devaneios tolos a me torturar" (Chão de giz, de Zé Ramalho, no final do texto). "E se eu chorar, e o sal molhar o meu sorriso, não se espante...é apenas o meu jeito de viver" (Sangrando, de Gonzaguinha).
E como não podia deixar de ser, como digo sempre, "a vida é um filme inacabado" (pelo menos, a minha vida assim o é), e como "tudo na minha vida me leva ao mundo do cinema", com mais esse inusitado "capítulo" que aconteceu na minha vida sobre "encontros e desencontros", não pude deixar de me lembrar, claro, de cinema. Quem acha que o cinema não retrata a vida real está redondamente equivocado, o cinema tem um pouco de tudo, tem "fantasias hollywoodianas", mas também tem fantasias que retratam uma realidade, como é o caso do filme "Cópia fiel", assim como pode retratar realidades nuas e cruas como em "Shame".
"Cópia fiel" - o filme conta a história de dois solitários, e prováveis desconhecidos, que se encontram por conta de um interesse comum (a arte original e suas cópias). A partir de um diálogo num café, um pequeno mal-entendido acaba acontecendo, fazendo com que os personagens (a excelente atriz francesa Juliette Binoche e o ator e músico britânico William Shimell) se transformem em "atores" de uma história improvisada que eles mesmos vão construindo e se envolvendo, num inusitado jogo, ora como se tivessem acabado de se conhecer, ora como se vivessem um casamento em crise, mesclando fantasia com a realidade do passado de cada um.
Este singelo filme francês (título original, "Copie conforme", veja no final do texto) tem como pano de fundo uma das províncias italianas do sul da Toscana, com seus cafés e suas belas ruelas, servindo como memória do passado de uma relação que talvez nunca tenha existido entre eles.
Dirigido pelo iraniano Abbas Kiarostami (sim, o filme é praticamente cosmopolita, como são as relações entre as pessoas, praticamente não existem diferenças demográficas quando se trata de sentimentos), o cineasta deixa no ar se o então casal realmente acabou de se conhecer ou trata-se de um reencontro depois de um longo afastamento.
E essa é a graça de "Cópia fiel" porque tanto aborda as expectativas (e as decepções) de um primeiro encontro, assim como as dificuldades de se discutir uma relação de longa data, e os dois excelentes atores, numa perfeita simbiose, sustentam praticamente sozinhos todos os sutis diálogos do filme. Sim, é um filme de diálogos, de sutilezas, de devaneios, um filme sobre relacionamentos, carregado de emoções contidas. Uma "fantasia real" para pensar e refletir.
Já o filme "Shame", que também fala de relacionamentos e sentimentos reprimidos mas, ao contrário, é um filme pesado. O charmoso ator alemão Michael Fassbender expressa todo o sofrimento do seu personagem que, viciado em sexo e pornografia 24 horas do dia, se vê consumido e prisioneiro de seus próprios instintos. O olhar e o semblante do ator expressam todo o isolamento e a reclusão emocional do seu personagem.
"Shame" (veja trailer no final do texto) tem muitas cenas de sexo e nu frontal dos atores, cenas estas que cabem muito bem no contexto do filme, pois apesar de picantes são cenas pesadas, filmadas sob a visão amargurada de seus personagens que vivem do sexo para esquecer suas frustrações e amarguras.
A comovente cena da irmã do personagem principal, a atriz inglesa Carey Mulligan, cantando "New York, New York" (a bela música de Sinatra - veja abaixo) é de uma melancolia estarrecedora, e resume toda a solidão dos dois irmãos, cada um tentando suprir suas carências afetivas à sua maneira, ele se envolvendo com desconhecidos evitando relações emotivas de qualquer espécie (falhando sempre quando tenta), enquanto ela, a irmã fragilizada pelas antigas relações frustradas, ao contrário, se joga de corpo e alma em toda e qualquer nova relação, sem nem pensar nas consequências (conheço um monte de mulheres que, na vida real, se enquadram nesse perfil), como se fosse a única tábua de salvação para as suas vidas miseráveis. Ambos os irmãos sofrem pela ausência de vínculos românticos e afetivos, ele por evitá-los e ela por não consegui-los.
"Shame" é um filme em que o sexo é o personagem principal, mas um filme triste, muito triste. E mais triste ainda, quando sabemos que personagens como eles, não acontecem só em filmes, tem um monte deles por aí, de carne e osso, homens em busca apenas de sexo, totalmente frustrados e carentes emocionais (e também conheço muitas mulheres sedentas por sexo, que chegam ao absurdo de admitirem que "são iguais aos homens, não vivem sem sexo", mas na verdade, assim como os homens, confundem sexo com carência de afeto, tal qual os personagens do filme).
E, para finalizar esse texto, deixo a bela música "Noturno" de Raimundo Fagner, que resume a desilusão desses muitos corações frustrados ("o aço dos meus olhos e o fel das minhas palavras acalmaram meu silêncio, mas deixaram suas marcas...").
"CINEMA é como um sonho...nenhuma arte perpassa a nossa consciência da forma que um filme faz: vai diretamente até nossos sentimentos atingindo a profundidade da nossa alma" (Ingmar Bergman, cineasta sueco).
Imagem
Select Language
Mostrando postagens com marcador melancolia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador melancolia. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Mas enfim... "relacionamentos" !!!
Marcadores:
abandono,
erotismo,
flerte,
melancolia,
relacionamento,
sedução,
sexo,
solidão
domingo, 5 de agosto de 2012
A possessão e o sadomasoquismo de "Lua de Fel"
Recebi vários e-mails (continuam evitando
comentários através do blog) sobre o meu texto anterior, sobre o erótico e
polêmico “De olhos bem fechados”. O que
chamou a atenção foi que o meu texto literalmente “atiçou” a galera – também
não é para menos, temas como erotismo, relacionamentos e periguetes sempre
dão o que falar. Um amigo lembrou o filme “Lua de fel” que também tem tudo a
ver com o tema, e assim resolvi falar sobre esse também polêmico e instigante
filme sobre traições, ciúmes, fantasias e desejos.
Mas antes, quero comentar os demais e-mails.
Questionaram que nós, mulheres, queremos ser compreendidas, mas que não nos
esforçamos para compreender os homens, tipo "homens gostam de
futebol" e que muitas de nós implicamos com essa “natureza masculina”.
What???? Como é que é?? Mas quem disse que gostar de
futebol é universal e inerente ao sexo masculino??? Os brasileiros é que gostam
de futebol, ou seja, futebol não é "da natureza do homem", americanos
gostam de "footbal" ou "soccer" (que na verdade é uma
variação do rúgbi em que se usa a mão para conduzir a bola) e canadenses mal
sabem quando rola a copa do mundo (o esporte nacional canadense no inverno
é o hóquei no gelo e no verão é o lacrosse), o futebol canadense até
existe, mas ninguém lá é fissurado (e nem por isso os canadenses
são "gays só porque não curtem a nossa bola no pé" e, “leva a
mal não”, os nossos queridos gays é que "a-do-ram de paixão” as famosas “encoxadas
e apalpadas" do nosso futebol).
Então, não me venham com essa de que
"futebol faz parte da natureza dos homens" (seria o equivalente
dizer que novela faz parte da natureza da mulher, e assim como futebol, eu também
detesto novelas), homens gostam sim de esportes em geral, mas isso nós mulheres
também gostamos, principalmente dos meninos do vôlei e do surf (hihihihi), mas
quanto aos manés analfabetos do futebol...(irc).
Brincadeiras à parte, eu acredito que, se o
Brasil investisse mais nos demais esportes, estaríamos muito melhor “na fita”
(vide a bela apresentação da nossa judoca Sarah Menezes, que, quase sem
patrocínio, acaba de faturar a medalha de ouro da atual Olimpíada de Londres,
perfil de verdadeira atleta, o que há muito não vemos nos campos de futebol,
apesar dos patrocínios milionários e dos exorbitantes salários desses marginais
do esporte nacional).
Certa vez, um colega
de trabalho, fanático por futebol (e, segundo meu “viadômetro”, ele na verdade é
mais fissurado nas coxas dos jogadores), praticamente me mandou sair do país, alegando rispidamente que “quem não gosta de futebol não deveria ser brasileiro”, só por eu insistir não
gostar de futebol (e muito menos de discutir futebol) - já gostei muito na época
dos verdadeiros desportistas, ainda mais com a empolgante música “noventa
milhões em ação” (é bem verdade que havia “os porões da ditadura”, mas menina
que eu era, não podia ser rotulada de alienada), mas agora com esses
mercenários e marginais (principalmente os do Flamengo) travestidos de
atletas....
Se há algo que me
irrita é alguém que diz “política e futebol eu não gosto e não discuto”.
Política não é para gostar, é uma obrigação que temos como cidadãos eleitores,
pois os nossos governantes são frutos do nosso maior ou menor envolvimento com
o processo político e eleitoral, portanto política se discute sim, goste ou
não, mas futebol...
Eu tenho direito, como
cidadã de uma nação democrática como a nossa, de não gostar (e inclusive de ter a
liberdade de dizer que não gosto) de futebol, e não aceito que um enrustido não
assumido que se finge de machão (não sei a quem ele quer enganar, sou mais os
gays assumidos que têm coragem de se impor numa sociedade machista) me hostilize,
me apontando o “caminho do aeroporto” (e não é a toa que, hoje, ele é um
ex-amigo, ou melhor, um ex- pseudo amigo, pois esta foi apenas uma das muitas
ofensas proferidas por ele gratuitamente - mal amado é assim mesmo, só o dia que "sair do armário e soltar a franga" é que vai melhorar o astral).
Mas, voltando aos comentários que recebi por
e-mail sobre o meu texto (eu sou assim mesmo, vou de um tema a outro, falo
pelos cotovelos, e “adorável anarquista” não consigo ouvir impropérios e ficar
calada), aproveito a dica do amigo para falar sobre esse outro instigante e
intrigante filme, do (também polêmico) diretor polonês Roman Polanski.
“Lua de fel” (título original “Bitter moon”,
década de 90) mostra o lado obscuro das relações, quando o instinto do amor se transforma
no instinto de poder e obsessão. No filme, o
romance e a paixão avassaladora saem de cena para dar lugar à tragédia, e mostra
como o amor, que deveria ser um encontro permanente entre um casal, pode se transformar
em desejo de possessão e submissão.
O cinema pode funcionar quase como “um
terapeuta”, com preciosas dicas de como conduzirmos nossos relacionamentos, nos
apontando caminhos que podemos seguir, ou mesmo armadilhas que podemos evitar nas
diversas relações interpessoais, em especial as amorosas. E esse filme é um
deles.
Durante uma viagem de cruzeiro, um casal de
ingleses (o charmoso ator Hugh Grant e a atriz Kristin Scott Thomas) conhece um escritor
americano paraplégico (vivido pelo ator Peter Coyote) e sua sensual companheira
(a atriz Emmanuelle Seigner, casada na vida real com Polanski).
O paraplégico, então um fracassado escritor, conta ao
personagem de Hugh Grant como conheceu (antes da tragédia que o colocou numa
cadeira de rodas) a estonteante garçonete, e relata em detalhes (cenas em
flashback) o que, no início, era uma paixão avassaladora, recheadas de brincadeiras
sados-masoquistas sexuais (algumas picantes, outras bem ridículas e inclusive humilhantes), e que com o tempo dá início a um jogo cruel de ciúme doentio, possessão e sadomasoquismo físico e mental em que o algoz passa a vítima, e a vítima a
algoz, num ciclo vicioso sem controle e sem volta.
O niilismo levado ao extremo e a ausência de alteridade são
o mote central da vida do casal americano que acabam por sucumbir os dois num
misto de amor e ódio irrefreáveis.
As “cores”, aparentemente muito carregadas,
que o filme retrata em relação ao sadomasoquismo e a possessão do casal
protagonista, podem até parecer exageradas, mas na vida real muita gente vive
esse mesmo ciclo destrutivo – por medo do abandono, aceitam-se humilhações
inclusive públicas, muitas mulheres sofrem caladas as traições dos parceiros
por pura falta de amor-próprio e auto-estima.
A bela trilha sonora do maestro grego
Vangelis (o mesmo de “Carruagens de Fogo” e “Blade runner”) preenche todo o
clima denso e tenso da trama, e a música “Slave to Love” que toca no baile de
fim de ano no cruzeiro ameniza o clima para preparar a surpresa e a tragédia
que estão por vir no “fechar das cortinas”.
Marcadores:
abandono,
amor-próprio,
auto-estima,
erotismo,
infidelidade,
medo,
melancolia,
paixão,
poder,
relacionamento,
sedução,
sexo,
solidão,
traição,
violência
sábado, 15 de outubro de 2011
"Melancolia" de Lars Von Trier e Reflexões" de Carl Sagan
Um soco no estômago. Essa é
a sensação que o filme “Melancolia” de Lars Von Trier deixa na gente. Pelo
menos, foi assim comigo. Por causa do tema – um misto de fim dos tempos (com um
planeta que se encontra na rota de colisão com a Terra) e o desamparo do ser
humano em relação à vida e à sua própria finitude – e em parte também por
causa da câmera “propositadamente inquieta” na mão do diretor em algumas cenas do
filme.
O filme é estarrecedor e
extremamente provocativo. Já nas cenas de abertura, com a câmera em
“slow-motion”, lentíssima, somos tomados (e atraídos) por um sentimento de
magnetismo e cumplicidade com os personagens que, com os movimentos extremamente
vagarosos parecem flutuar nas belíssimas paisagens “pré-apocalípticas”, com
suas fisionomias melancólicas e quase estáticas.
O cinema de Lars Von Trier é único (leia sobre esse brilhante cineasta dinamarquês, aqui no blog, em maio de 2011), o diretor é de uma perícia técnica cinematográfica imbatível
e sem concorrente no cinema atual. Nas tomadas do planeta invasor, quando ele aparece no céu como uma segunda lua, as sombras provocadas pelos dois “luares” são impressionantes, num jogo de imagem e câmera extraordinários. Magistral.
Terminado o filme, num fim
surpreendente, tive dificuldade de me levantar da cadeira da sala de projeção
do shopping, e caminhei pelos amplos corredores do cinema, cambaleante, meio
que sem rumo. Fui sozinha assistir ao filme, sabia que teria que ser uma
experiência isolada e solitária e que não poderia compartilhar com ninguém a
presumida e derradeira “melancolia de fim dos tempos” que o filme provavelmente
me provocaria.
Ao alcançar os corredores
do shopping quase vazio (era um dia de pouco movimento, ainda bem – detesto cinema dentro de shopping – multidão
seria ainda mais desconcertante) respirei fundo, e num esforço, tentei tomar um
café para tentar amenizar o impacto e o amargor da sensação de desamparo
reflexivo do sentido da vida (ou da falta dele) que o filme nos deixa, mas não
consegui, o café me pareceu ainda mais amargo. Desisti, e fui em direção ao
estacionamento, paguei, peguei o carro e dirigi até minha casa, tudo
praticamente no “piloto automático”,
porque, por minha mente, só
passava a imagem da atriz kirsten Dunst e suas palavras proféticas: “A vida só
existe na Terra...nós estamos sozinhos, sempre estivemos sozinhos”. O que me
fez lembrar-me das palavras derradeiras de Carl Sagan quando escreveu, no seu
livro “Pálido ponto azul“ (“Pale blue dot”), sobre o nosso planeta: “A Terra é um
mero ponto em um vasto cosmo circundante, e na escala dos mundos os humanos são
irrelevantes”.
O astrônomo americano Carl
Sagan foi o segundo cientista mais popular do século XX, depois do físico Albert
Einstein. Ficou bastante conhecido do grande público na década de 80 por
apresentar a série televisiva americana “Cosmos” baseada no seu livro homônimo.
O cientista reunia a rara capacidade de transmitir, de maneira simples, temas
científicos bastante complexos, sem no entanto menosprezar a inteligência do
leitor. Através de dados estatísticos, divagações, analogias, mitos e histórias,
ele tratava de vários assuntos, sempre fiel ao compromisso de cientista,
versando sobre o quão ínfimos somos nós em relação ao cosmo, despertando-nos a
uma reflexão da nossa existência no planeta e no universo.
O cientista foi consultor e
conselheiro da NASA desde os anos 50, e trabalhou com os astronautas do projeto
Apollo antes de suas idas à Lua, e também participou das missões Voyager cujo
objetivo era estudar os planetas Júpiter e Saturno e suas luas.
Li recentemente o livro
póstumo do cientista, intitulado “Bilhões e bilhões – reflexões sobre vida e
morte na virada do milênio” (textos sobre temas diversos publicados pela sua
esposa, após a sua morte), e me pareceu que o cineasta dinamarquês também andou
lendo o astrônomo e se inspirando nas palavras do cientista para filmar
“Melancolia”.
Ao ler Sagan vamos
descobrir que “talvez não haja melhor demonstração da tolice das vaidades
humanas do que a imagem distante do nosso pequeno mundo, pois ela enfatiza
nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e
estimar o único lar que conhecemos” e que “não há nenhum indício de que a ajuda
virá de algum outro lugar para nos salvarmos de nós mesmos” (lembrando as
palavras da protagonista em “Melancolia”), nos convocando para revermos nossas
atitudes em relação ao meio-ambiente, aos poluentes, ao buraco na camada de
ozônio, nossa imaginária auto-importância, a ilusão de que temos alguma
importância privilegiada no universo.
A leitura dos seus livros é
extremamente prazerosa. Inteligente e perspicaz, ele incita o leitor a
reflexões sobre vida e morte (do planeta, do Universo, do ser humano), sobre caráter,
religião, crendices, assim como perguntas (sem respostas, óbvio) sobre a origem
da vida, a existência ou não de Deus e de extraterrestres.
Numa linguagem clara e
razoavelmente técnica, mas compreensível para o leigo em astronomia e física,
ele alerta para a elevação da temperatura no planeta e o efeito estufa, a
degradação da camada de ozônio e a devastação das florestas, e desperta
reflexões profundas no leitor sobre os cuidados que devemos tomar para frearmos
a destruição do planeta, sugerindo inclusive soluções simples e sensatas para
tal, como a união da ciência com a
religião.
Mas também nos diverte com
suas histórias, como a do título do seu livro “Bilhões e bilhões”, sobre o
imaginário popular em relação a números infinitamente grandes (“pois é difícil
falar sobre o cosmos sem usar números grandes”) como milhões, bilhões e
trilhões.
Como, por exemplo, quando
ele cita, no livro, uma antiga piada sobre um expositor de um planetário que
diz à sua platéia: “Em cinco bilhões de anos, o Sol vai aumentar até se tornar
um gigante vermelho inchado que engolirá os planetas Mercúrio e Vênus e
finalmente engolirá a Terra”. Mais tarde, um ansioso (e temeroso) membro da
platéia o aborda: “Desculpe-me, doutor, mas o senhor disse que o Sol vai
arrebentar a Terra em cinco bilhões de anos? “Sim, mais ou menos”, concorda o
orador. “Graças a Deus”, responde aliviado o ouvinte, ”por um momento pensei
que tivesse dito só cinco milhões de anos”.
O cientista morreu em 1996,
aos 62 anos, após ser vencido numa árdua luta de dois anos contra um câncer de
medula óssea, e toda sua batalha pela vida, contra a doença, está registrada
também no livro “Bilhões e bilhões”. Além das reflexões sobre o sentido da vida
(e da sua própria), o cientista discute questões científicas, filosóficas e
políticas que tanto o inquietavam, temas polêmicos como a vida em outro planeta
e a existência ou não de Deus, debate sobre os interesses financeiros sórdidos
que existem por trás dos tratados que visam diminuir os gases poluentes e a produção
de clorofluorcarbonetos que contribuem para o aquecimento global do planeta.
Além da série televisiva
“Cosmos”, outro livro do cientista foi parar nas telas do cinema. “Contatos”
(“Contacts”) foi adaptado para o cinema em 1997 e estrelado pela atriz Jodie
Foster. Ficção científica sobre contatos com alienígenas em que ciência e razão
são confrontados com religião e fé.
O belo vídeo “Pense” (veja
no final do texto), narrado pelo próprio cientista, com cenas de memoráveis
filmes de cinema, mostra o minúsculo ponto
solitário que representa o nosso pequeno planeta na grande e envolvente escuridão
cósmica, e que conhecer astronomia leva a uma experiência de humildade e
formação de caráter, pois “o planeta Terra é um palco muito pequeno numa imensa
arena cósmica”, e “goste ou não a Terra é o lugar que estamos estabelecidos” alertando-nos
sobre a responsabilidade de cuidar e preservar o “pequeno e pálido ponto azul”.
Quanto à “Melancolia”, uma experiência cinematográfica avassaladora, é o cinema em forma de poesia impactante alertando para a catástrofe que tanto temia o cientista morto. Torçamos para que o fim dos tempos seja sempre uma bela ficção poética e apocalíptica do cinema. Só do cinema.
E relembrando outro grande cineasta, o intelectual existencialista "neurótico e nervoso" Woody Allen, questionador do inquestionável: "Mais do que nunca na história, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero e a absoluta falta de esperança. O outro à total extinção. Vamos rezar para escolhermos corretamente".
Quanto à “Melancolia”, uma experiência cinematográfica avassaladora, é o cinema em forma de poesia impactante alertando para a catástrofe que tanto temia o cientista morto. Torçamos para que o fim dos tempos seja sempre uma bela ficção poética e apocalíptica do cinema. Só do cinema.
E relembrando outro grande cineasta, o intelectual existencialista "neurótico e nervoso" Woody Allen, questionador do inquestionável: "Mais do que nunca na história, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero e a absoluta falta de esperança. O outro à total extinção. Vamos rezar para escolhermos corretamente".
Marcadores:
felicidade,
melancolia,
sensibilidade
domingo, 6 de março de 2011
O cinema e o universo das drogas
O universo das drogas – sempre quando o cinema retrata esse tema, em geral, é sob um enfoque muito dolorido. E assim deve ser, pois não se pode amenizar quando se trata da vida humana e do poder de destruição das drogas.
“Ficar limpo” é possível, mas a estrada para tal é árdua, e o sofrimento é indecifrável e incalculável, por isso acho que o cinema tem que mostrar, sem rodeios, a dura realidade do mundo das drogas. E um ex-viciado nunca é 100% ex-viciado, ele precisa viver um dia de cada vez, e sobreviver ao dia seguinte.
“Réquiem para um sonho” virou um Cult, ao retratar o mundo das drogas, tornando-se uma das obras-primas máximas do universo das drogas, ao usar uma linguagem cinematográfica moderna, ousada e dolorosamente realista. É a história de três jovens, viciados em drogas cada vez mais pesadas, e uma mãe também viciada (em medicamentos ditos lícitos, anfetaminas para emagrecer).
O filme mostra cronologicamente os sonhos dos jovens (a atriz Jennifer Connelly é um desses jovens) e depois da fase de “lua de mel” com as drogas, vem o processo de ruína, e o fim trágico de seus usuários, com mutilação de corpos e de vidas.
Quando se trata de drogas, dificilmente o final será feliz, para quem quer que seja, mesmo para os que se acham capazes de controlar o vício, os chamados “usuários sociais” – no filme, o personagem vivido pelo ator Marlon Wayans (mais conhecido pelos seus papéis em comédias como “As branquelas” e “Todo mundo em pânico”) faz o papel de um viciado que usa a droga inicialmente “a seu favor”, e que, equivocadamente, acha que tem controle sobre o seu vício.
Ao som de uma trilha sonora incidental marcante e extremamente angustiante, a câmera movimenta-se freneticamente, em cortes rápidos, nos momentos de medo, ansiedade, insônia e pesadelos que se repetem a cada injeção – as pupilas que se dilatam, o líquido percorrendo rapidamente pelas veias, e as alucinações paulatinamente substituindo o prazer dos seus dependentes. Não há uma lição de moral no filme, cada um que julgue como quer se situar diante do que vai assistir, se as cenas impactantes (e isso com certeza elas são) serão suficientes para alertar sobre o poder de mutilação das drogas.
Em “O casamento de Rachel” (veja trailer no final do texto), a atriz Anne Hathaway vive a irmã da Rachel do título, que sai temporariamente de uma clínica de reabilitação (para recuperação de viciados) para assistir ao casamento da irmã - o filme aborda a perspectiva de toda uma família para a volta da mimada filha problemática.
O interessante desse filme é que as câmeras que capturam a imagem da festa são em grande parte como se fossem as câmeras amadoras dos próprios convidados, fazendo o espectador se sentir as voltas de uma verdadeira reunião familiar, que inclui ter que lidar com os fantasmas de um passado antigo (que envolve um trágico acidente) e os problemas familiares (com suas brigas, seus erros e acertos) comuns a qualquer um de nós. A trilha sonora é ótima (“Everyday” de James Taylor e “Unknown Legend” de Neil Young - cantada pelo noivo - e com direito a uma "réplica" de uma escola de samba carioca) e o filme encantador, apesar de triste em muitos dos seus aspectos relacionados às drogas e seus efeitos deletérios sobre toda uma família.
Kurt Cobain, líder do grupo “Nirvana” encontrou um sósia a sua altura para reviver na telona os últimos dias de sua existência. No filme “Last days” (uma semi-biografia da carreira e da fatídica morte de Kurt Cobain), o ator e também músico Michael Pitt (inclusive bem parecido fisicamente com Cobain) vive a trajetória de um músico introspectivo, de caráter depressivo e destrutivo, que lida mal com o peso do sucesso.
Cobain mostrava-se perdido e desiludido com a fama, e apesar de repetidas insinuações e de tentativas de suicídio anteriores, ninguém foi capaz de conter o ímpeto autodestrutivo do músico, agravados em muito pelo seu envolvimento com drogas pesadas.
Kurt Cobain se sentia frustrado. "Fomos incapazes de mostrar o lado mais suave, mais dinâmico da banda", disse Kurt numa entrevista. "O som pesado de guitarra é o que garotada quer ouvir. Até quando eu serei capaz de gritar até arrebentar os pulmões toda noite, durante um ano inteiro de turnê?" finaliza a entrevista. Sentia-se prisioneiro da canção "Smells Like Teen Spirit" (veja no final do texto) e de toda badalação em torno do grunge-rock de Seattle, decorrente do sucesso daquela música e da transformação do seu nome em um ícone da música pop.
Com “Laranja mecânica” (“A Clockwork Orange”), o aclamado diretor Stanley Kubrick causou controvérsia (e furor) no mundo do cinema em plena década de 70. Numa Inglaterra futurista, o ator Malcolm McDowel vive um jovem de classe média alta, líder de uma gangue de pervertidos, viciado em “leite batizado” que, após roubar, estuprar e matar “por diversão” (sempre ao som de uma estridente música clássica) é preso pela policia e usado como cobaia, num experimento governamental que (utilizando métodos nada ortodoxos e igualmente violentos) faria com que o indivíduo interrompesse seus impulsos violentos.
O mundo passava pela polêmica Guerra do Vietnã por trás da cortina da guerra fria, e o Brasil estava em plena ditadura, e o filme só foi liberado pela censura aqui no Brasil na década de 80, e mesmo assim só foi visto nos grandes centros urbanos e em sessões relâmpagos. E o filme questiona: quem é o mais violento? o jovem delinqüente ou o governo totalitário? Apesar de não abordar diretamente o tema sobre drogas (apesar da violência nitidamente agravada por elas), “Laranja mecânica” é um clássico do cinema cult.
Em “Gia, fama e destruição”, a bela atriz Angelina Jolie aceita o desafio para viver na telona a história real da modelo americana Gia Maria Carangi, que ainda no auge da carreira se entrega ao mundo das drogas pesadas, e morre consumida pela AIDS aos vinte e poucos anos de idade (veja no final do texto).
E não se esqueça, antes de se enveredar nesse universo do cinema (e das drogas), é bom preparar-se, pois são todos filmes pesados, impactantes e depressivos, e a sensação de estar experimentando os mesmos desprazeres dos personagens é quase real, tal a violência desnuda das imagens cinematográficas que não poupam em momento algum o telespectador.
“Ficar limpo” é possível, mas a estrada para tal é árdua, e o sofrimento é indecifrável e incalculável, por isso acho que o cinema tem que mostrar, sem rodeios, a dura realidade do mundo das drogas. E um ex-viciado nunca é 100% ex-viciado, ele precisa viver um dia de cada vez, e sobreviver ao dia seguinte.
“Réquiem para um sonho” virou um Cult, ao retratar o mundo das drogas, tornando-se uma das obras-primas máximas do universo das drogas, ao usar uma linguagem cinematográfica moderna, ousada e dolorosamente realista. É a história de três jovens, viciados em drogas cada vez mais pesadas, e uma mãe também viciada (em medicamentos ditos lícitos, anfetaminas para emagrecer).
O filme mostra cronologicamente os sonhos dos jovens (a atriz Jennifer Connelly é um desses jovens) e depois da fase de “lua de mel” com as drogas, vem o processo de ruína, e o fim trágico de seus usuários, com mutilação de corpos e de vidas.
Quando se trata de drogas, dificilmente o final será feliz, para quem quer que seja, mesmo para os que se acham capazes de controlar o vício, os chamados “usuários sociais” – no filme, o personagem vivido pelo ator Marlon Wayans (mais conhecido pelos seus papéis em comédias como “As branquelas” e “Todo mundo em pânico”) faz o papel de um viciado que usa a droga inicialmente “a seu favor”, e que, equivocadamente, acha que tem controle sobre o seu vício.
Ao som de uma trilha sonora incidental marcante e extremamente angustiante, a câmera movimenta-se freneticamente, em cortes rápidos, nos momentos de medo, ansiedade, insônia e pesadelos que se repetem a cada injeção – as pupilas que se dilatam, o líquido percorrendo rapidamente pelas veias, e as alucinações paulatinamente substituindo o prazer dos seus dependentes. Não há uma lição de moral no filme, cada um que julgue como quer se situar diante do que vai assistir, se as cenas impactantes (e isso com certeza elas são) serão suficientes para alertar sobre o poder de mutilação das drogas.
Em “O casamento de Rachel” (veja trailer no final do texto), a atriz Anne Hathaway vive a irmã da Rachel do título, que sai temporariamente de uma clínica de reabilitação (para recuperação de viciados) para assistir ao casamento da irmã - o filme aborda a perspectiva de toda uma família para a volta da mimada filha problemática.
O interessante desse filme é que as câmeras que capturam a imagem da festa são em grande parte como se fossem as câmeras amadoras dos próprios convidados, fazendo o espectador se sentir as voltas de uma verdadeira reunião familiar, que inclui ter que lidar com os fantasmas de um passado antigo (que envolve um trágico acidente) e os problemas familiares (com suas brigas, seus erros e acertos) comuns a qualquer um de nós. A trilha sonora é ótima (“Everyday” de James Taylor e “Unknown Legend” de Neil Young - cantada pelo noivo - e com direito a uma "réplica" de uma escola de samba carioca) e o filme encantador, apesar de triste em muitos dos seus aspectos relacionados às drogas e seus efeitos deletérios sobre toda uma família.
Kurt Cobain, líder do grupo “Nirvana” encontrou um sósia a sua altura para reviver na telona os últimos dias de sua existência. No filme “Last days” (uma semi-biografia da carreira e da fatídica morte de Kurt Cobain), o ator e também músico Michael Pitt (inclusive bem parecido fisicamente com Cobain) vive a trajetória de um músico introspectivo, de caráter depressivo e destrutivo, que lida mal com o peso do sucesso.
Cobain mostrava-se perdido e desiludido com a fama, e apesar de repetidas insinuações e de tentativas de suicídio anteriores, ninguém foi capaz de conter o ímpeto autodestrutivo do músico, agravados em muito pelo seu envolvimento com drogas pesadas.
Kurt Cobain se sentia frustrado. "Fomos incapazes de mostrar o lado mais suave, mais dinâmico da banda", disse Kurt numa entrevista. "O som pesado de guitarra é o que garotada quer ouvir. Até quando eu serei capaz de gritar até arrebentar os pulmões toda noite, durante um ano inteiro de turnê?" finaliza a entrevista. Sentia-se prisioneiro da canção "Smells Like Teen Spirit" (veja no final do texto) e de toda badalação em torno do grunge-rock de Seattle, decorrente do sucesso daquela música e da transformação do seu nome em um ícone da música pop.
Com “Laranja mecânica” (“A Clockwork Orange”), o aclamado diretor Stanley Kubrick causou controvérsia (e furor) no mundo do cinema em plena década de 70. Numa Inglaterra futurista, o ator Malcolm McDowel vive um jovem de classe média alta, líder de uma gangue de pervertidos, viciado em “leite batizado” que, após roubar, estuprar e matar “por diversão” (sempre ao som de uma estridente música clássica) é preso pela policia e usado como cobaia, num experimento governamental que (utilizando métodos nada ortodoxos e igualmente violentos) faria com que o indivíduo interrompesse seus impulsos violentos.
O mundo passava pela polêmica Guerra do Vietnã por trás da cortina da guerra fria, e o Brasil estava em plena ditadura, e o filme só foi liberado pela censura aqui no Brasil na década de 80, e mesmo assim só foi visto nos grandes centros urbanos e em sessões relâmpagos. E o filme questiona: quem é o mais violento? o jovem delinqüente ou o governo totalitário? Apesar de não abordar diretamente o tema sobre drogas (apesar da violência nitidamente agravada por elas), “Laranja mecânica” é um clássico do cinema cult.
Em “Gia, fama e destruição”, a bela atriz Angelina Jolie aceita o desafio para viver na telona a história real da modelo americana Gia Maria Carangi, que ainda no auge da carreira se entrega ao mundo das drogas pesadas, e morre consumida pela AIDS aos vinte e poucos anos de idade (veja no final do texto).
E não se esqueça, antes de se enveredar nesse universo do cinema (e das drogas), é bom preparar-se, pois são todos filmes pesados, impactantes e depressivos, e a sensação de estar experimentando os mesmos desprazeres dos personagens é quase real, tal a violência desnuda das imagens cinematográficas que não poupam em momento algum o telespectador.
Marcadores:
amor-próprio,
auto-estima,
melancolia,
sensibilidade
sábado, 28 de novembro de 2009
"Hora de voltar" ("Garden State")
"Hora de voltar" - esse filme "passou longe" do circuitão, circulou só nos festivais de cinema, agradando em cheio aos "cinéfilos de plantão" pelo seu estilo de comédia dramática "não hollywoodiana", e sua divulgação se deu no "boca a boca" entre os fissurados em cinema alternativo.
"Hora de voltar", mistura de drama com pitadas de um humor perspicaz e irreverente, conta a história de um rapaz depressivo, que se reveza em ser ator e garçom em Los Angeles, marcado por um trauma familiar na infância que, por causa do falecimento de sua mãe, se vê obrigado a voltar a sua cidade natal (em Nova Jersey, daí o título original do filme "Garden State") e ao seu passado deixado a força para trás.
O filme foi escrito, dirigido e estrelado pelo ator Zach Braff (do seriado americano "Scrubs") como o rapaz "deprê", dopado com antidepressivos, totalmente alheio a tudo e a todos - as cenas do seu corpo "tatuado" pelos amigos após uma festa regada a álcool e ecstasy são hilárias - e também conta com a atriz Natalie Portmann (dos também ótimos "Closer", "O profissional" e "V de vingança"), que está bem a vontade no papel de "maluquinha" e epiléptica.
A trilha sonora do filme é uma atração à parte - Coldplay (com a música "Don't panic"), Colin Hay e bandas desconhecidas para o grande público como The Shins, Remy Zero, Nick Drake, Zero 7 - músicas envolventes, muito bem escolhidas, compõem e marcam magistralmente as cenas: numa delas a "maluquinha" apresenta ao rapaz deprê o som do grupo "The Shins", com a música "New slang", enquanto ele tenta se livrar de um cão guia numa cena hilária, e no "velório" do seu hamster, ouve-se ao fundo Colin Hay com "I just don't think I'll ever get over you".
E há a cena transcendental e antológica do "guardião do abismo infinito" que diz pro personagem deprê: "good luck exploring the infinite abysm" numa alusão ao abismo da sua própria mente, e ao ouvir isso o personagem "liberta-se" com um grito no abismo, ao som de Simon and Garfunkel, com a música "The only living boy in New York" (veja a cena no final do texto).
"Hora de voltar" é um filme que dá vontade de "entrar no papo cabeça" dos seus personagens, por horas a fio, noite adentro, e gritar com toda a força à beira desse abismo que é a vida, afinal há sentido na vida? ou é melhor vivê-la como nos é possível viver, sem questioná-la? A protagonista conclui numa das belas cenas do filme em que o rapaz se surpreende com uma furtiva lágrima: "this is the life, sometimes hurts so much, but that is life, it's real".
"Hora de voltar", mistura de drama com pitadas de um humor perspicaz e irreverente, conta a história de um rapaz depressivo, que se reveza em ser ator e garçom em Los Angeles, marcado por um trauma familiar na infância que, por causa do falecimento de sua mãe, se vê obrigado a voltar a sua cidade natal (em Nova Jersey, daí o título original do filme "Garden State") e ao seu passado deixado a força para trás.
O filme foi escrito, dirigido e estrelado pelo ator Zach Braff (do seriado americano "Scrubs") como o rapaz "deprê", dopado com antidepressivos, totalmente alheio a tudo e a todos - as cenas do seu corpo "tatuado" pelos amigos após uma festa regada a álcool e ecstasy são hilárias - e também conta com a atriz Natalie Portmann (dos também ótimos "Closer", "O profissional" e "V de vingança"), que está bem a vontade no papel de "maluquinha" e epiléptica.
A trilha sonora do filme é uma atração à parte - Coldplay (com a música "Don't panic"), Colin Hay e bandas desconhecidas para o grande público como The Shins, Remy Zero, Nick Drake, Zero 7 - músicas envolventes, muito bem escolhidas, compõem e marcam magistralmente as cenas: numa delas a "maluquinha" apresenta ao rapaz deprê o som do grupo "The Shins", com a música "New slang", enquanto ele tenta se livrar de um cão guia numa cena hilária, e no "velório" do seu hamster, ouve-se ao fundo Colin Hay com "I just don't think I'll ever get over you".
E há a cena transcendental e antológica do "guardião do abismo infinito" que diz pro personagem deprê: "good luck exploring the infinite abysm" numa alusão ao abismo da sua própria mente, e ao ouvir isso o personagem "liberta-se" com um grito no abismo, ao som de Simon and Garfunkel, com a música "The only living boy in New York" (veja a cena no final do texto).
"Hora de voltar" é um filme que dá vontade de "entrar no papo cabeça" dos seus personagens, por horas a fio, noite adentro, e gritar com toda a força à beira desse abismo que é a vida, afinal há sentido na vida? ou é melhor vivê-la como nos é possível viver, sem questioná-la? A protagonista conclui numa das belas cenas do filme em que o rapaz se surpreende com uma furtiva lágrima: "this is the life, sometimes hurts so much, but that is life, it's real".
Marcadores:
felicidade,
melancolia,
paixão,
sensibilidade
terça-feira, 24 de novembro de 2009
"Impulsividade" - o filme
"Impulsividade" - a história do adolescente que, ao não se enquadrar em nenhuma "tribo", anestesiado de tudo e de todos, se isola para, literalmente, "chupar o dedo" (daí o título original "Thumbsucker" - veja trailer do filme no final do texto), se negando a sair da adolescência para a vida adulta, já que os exemplos que tinha de maturidade, vinda de adultos à sua volta, eram falhos e questionáveis.
No filme, todos têm seus vícios (a mãe, papel de Tilda Swinton, o dentista, papel de Keanu Reeves, o pai, o irmão), vícios em drogas lícitas e ilícitas, em competições, em ganância, em busca incessante por sucesso, mas só o vício do então adolescente não é considerado digno, não é "normal" como os demais, ninguém é punido por seus vícios "normais", só ele é visto como "portador de uma anomalia", é o único "doente".
Mas para o jovem adolescente é apenas uma compulsão que, desde a infância, o acalma, portanto difícil de evitar e controlar. Todos nós tivemos/temos/teremos vícios que funcionam como válvula de escape para alívio de tensões, tipo roer unhas, arrancar cutículas, balançar pernas, etc.
No filme, "resolve-se" o problema do garoto com uma medicação, a ritalina, que o faz ficar hiperativo, e ele passa a experimentar de tudo, inclusive álcool e drogas, e então, ironicamente, passa a ser visto como um adolescente normal.
No filme, todos têm seus vícios (a mãe, papel de Tilda Swinton, o dentista, papel de Keanu Reeves, o pai, o irmão), vícios em drogas lícitas e ilícitas, em competições, em ganância, em busca incessante por sucesso, mas só o vício do então adolescente não é considerado digno, não é "normal" como os demais, ninguém é punido por seus vícios "normais", só ele é visto como "portador de uma anomalia", é o único "doente".
Mas para o jovem adolescente é apenas uma compulsão que, desde a infância, o acalma, portanto difícil de evitar e controlar. Todos nós tivemos/temos/teremos vícios que funcionam como válvula de escape para alívio de tensões, tipo roer unhas, arrancar cutículas, balançar pernas, etc.
No filme, "resolve-se" o problema do garoto com uma medicação, a ritalina, que o faz ficar hiperativo, e ele passa a experimentar de tudo, inclusive álcool e drogas, e então, ironicamente, passa a ser visto como um adolescente normal.
É a velha (ou seria nova) tirania urbana e globalizada, de que temos que nos enquadrar em arquétipos e estereótipos, é a cultura da "felicidade" a qualquer preço, não podemos ficar tristes, somos logo rotulados de "depressivos" e dá-lhe "fluoxetinas" da vida, e somos obrigados a voltar a "sorrir" (ou melhor, ficamos embotados, dopados, mas "felizes", porque não é de "bom tom" compartilhar tristeza, "não dá ibope").
A escritora gaúcha Lya Luft, no seu livro "Rio do meio" e ainda no também excelente "Perdas e ganhos", já discutiu exaustivamente sobre esse tema, que é preciso passar conscientemente (e lucidamente) por essas tristezas para poder vencê-las, e não "fingir" que elas não existem por meio de "drogas da felicidade".
Portanto, diante de uma inevitável tristeza, "curta-a" lucidamente, e vença-a, e saiba que você não será o único a passar por isso; esse é o tema desse excelente filme alternativo não hollywoodiano. "Impulsividade" é uma profunda reflexão sobre nossas atitudes, erros e acertos nas relações interpessoais.
E a pergunta que não quer calar - é preciso trocar um vício "anormal" por outro "normal" prá ser aceito pela "tchurma"? E que droga de felicidade é essa, que querem nos impor, a todo custo, com uma "droga lícita" de felicidade???
E termino com o questionamento do grande poeta alemão Rainer Rilke: "Quem nunca esteve sentado, cheio de medo, diante da cortina do próprio coração?"
Marcadores:
juventude,
medo,
melancolia,
sensibilidade
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
"A vida dos outros" e "A experiência" - excelentes filmes alemães
"O poder transforma, e nem sempre prá melhor, é preciso saber lidar com ele, para que não nos deforme". Palavras da escritora Lya Luft. Começo minha dica de cinema com essa frase que resume - e nos faz meditar sobre - esses dois excelentes filmes alemães.
"A vida dos outros" (veja o trailer no final do texto) - a história se passa na Alemanha, década de 80, anos antes da queda do muro de Berlim. De início, vai parecer que se trata de um filme político sobre os abusos e desmandos do regime ditatorial da época, onde a Stasi, a polícia secreta alemã oriental, com seus espiões orgulhosos em "servir a pátria, rotula a todos, indiscriminadamente, como possíveis traidores do partido,
mas o filme apresenta reviravoltas, começa devagar, frio, tudo muito sombrio, combinando com a fisionomia dura e impassível do espião, como se a lentidão expressasse o ódio e o sentimento de escárnio e delação que há por trás de toda vigilância, mas aos poucos a trama vai te envolvendo,
é um suspense lento mas penetrante, o personagem do espião nos conduz magistralmente (mérito do excelente ator), e sem perceber, sem alardes e sem sustos, sem te deixar "na ponta da cadeira", e em momento algum "roendo as unhas", quando você se espantar já estará totalmente absorvido pela trama.
O filme coloca o espectador sob a lente e o ponto de vista do algoz, só que aos poucos, com o decorrer das investigações (em que a vítima, um casal de atores, tem sua vida vasculhada pelo avesso) o espião se vê diante de um novo mundo que se descortina à sua frente, quando entra em contato com o mundo artístico de sua vítima (principalmente com os versos e a poesia de Bertold Brecht que ele rouba do apto do casal),
e então vamos assistir a uma transformação do semblante do algoz, e o que era escárnio passa a admiração provocando uma total reviravolta no conduzir das investigações, acontece então a redenção do algoz.
Vital para o desenrolar do filme é a atuação do ator principal, o espião, ao transmitir magistralmente nas suas expressões a complexidade das relações e reações humanas, um excelente ator (não lembro o nome, também nome alemão fica difícil guardar) que morreu algum tempo depois de terminada as filmagens.
A seguir, cai o muro de Berlim, a Alemanha é unificada, e o personagem, o ator vigiado, descobre então que esteve o tempo todo sendo vigiado, encontra seu ex algoz e como um "danke" (muito obrigado em alemão) seria muito pouco, ele encontra um jeito magnífico de agradecer - veja o filme e o "gran finale". Emocionante. Imperdível.
Agora, se você é do tipo que gosta de suspense daqueles que deixa a gente "na ponta da cadeira, roendo as unhas", então não deixe de ver "A experiência" (em alemão "Das Experiment" - não confundir com um outro "A experiência", filme B, enlatado americano sobre alienígenas, "chatérrimo")
É um filme baseado em fatos reais, o que impressiona mais ainda - o experimento de aprisionamento da Universidade de Stanford na década de 70 que foi suspenso na metade do projeto (vale a pena ler sobre o experimento, veja no wikipedia).
Um macabro "reality show", o filme pretende mostrar a possível catástrofe que poderia acontecer se o experimento não tivesse sido suspenso. Excelente filme, mas prepare o estômago, não é fácil de assistir (eu só consegui ver uma única vez), é pesado, claustrofóbico, deprê mesmo, mais paranóico impossível (coisa de alemão?)
"A vida dos outros" (veja o trailer no final do texto) - a história se passa na Alemanha, década de 80, anos antes da queda do muro de Berlim. De início, vai parecer que se trata de um filme político sobre os abusos e desmandos do regime ditatorial da época, onde a Stasi, a polícia secreta alemã oriental, com seus espiões orgulhosos em "servir a pátria, rotula a todos, indiscriminadamente, como possíveis traidores do partido,
mas o filme apresenta reviravoltas, começa devagar, frio, tudo muito sombrio, combinando com a fisionomia dura e impassível do espião, como se a lentidão expressasse o ódio e o sentimento de escárnio e delação que há por trás de toda vigilância, mas aos poucos a trama vai te envolvendo,
é um suspense lento mas penetrante, o personagem do espião nos conduz magistralmente (mérito do excelente ator), e sem perceber, sem alardes e sem sustos, sem te deixar "na ponta da cadeira", e em momento algum "roendo as unhas", quando você se espantar já estará totalmente absorvido pela trama.
O filme coloca o espectador sob a lente e o ponto de vista do algoz, só que aos poucos, com o decorrer das investigações (em que a vítima, um casal de atores, tem sua vida vasculhada pelo avesso) o espião se vê diante de um novo mundo que se descortina à sua frente, quando entra em contato com o mundo artístico de sua vítima (principalmente com os versos e a poesia de Bertold Brecht que ele rouba do apto do casal),
e então vamos assistir a uma transformação do semblante do algoz, e o que era escárnio passa a admiração provocando uma total reviravolta no conduzir das investigações, acontece então a redenção do algoz.
Vital para o desenrolar do filme é a atuação do ator principal, o espião, ao transmitir magistralmente nas suas expressões a complexidade das relações e reações humanas, um excelente ator (não lembro o nome, também nome alemão fica difícil guardar) que morreu algum tempo depois de terminada as filmagens.
A seguir, cai o muro de Berlim, a Alemanha é unificada, e o personagem, o ator vigiado, descobre então que esteve o tempo todo sendo vigiado, encontra seu ex algoz e como um "danke" (muito obrigado em alemão) seria muito pouco, ele encontra um jeito magnífico de agradecer - veja o filme e o "gran finale". Emocionante. Imperdível.
Agora, se você é do tipo que gosta de suspense daqueles que deixa a gente "na ponta da cadeira, roendo as unhas", então não deixe de ver "A experiência" (em alemão "Das Experiment" - não confundir com um outro "A experiência", filme B, enlatado americano sobre alienígenas, "chatérrimo")
É um filme baseado em fatos reais, o que impressiona mais ainda - o experimento de aprisionamento da Universidade de Stanford na década de 70 que foi suspenso na metade do projeto (vale a pena ler sobre o experimento, veja no wikipedia).
Um macabro "reality show", o filme pretende mostrar a possível catástrofe que poderia acontecer se o experimento não tivesse sido suspenso. Excelente filme, mas prepare o estômago, não é fácil de assistir (eu só consegui ver uma única vez), é pesado, claustrofóbico, deprê mesmo, mais paranóico impossível (coisa de alemão?)
Marcadores:
futuro,
medo,
melancolia,
violência
sábado, 14 de novembro de 2009
"Brilho eterno de uma mente sem lembranças"
O filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (trailer do filme no final do texto) - logo nas primeiras cenas, a sensação de confusão pode ser tão (ou mais) intensa quanto a do personagem principal, mas calma, não desanime - o filme se desenrola em flashback, começa pela tentativa de reinício da relação de um casal, corta e vai pro fim do relacionamento, corta de novo e volta pro desenrolar dos acontecimentos que levaram ao rompimento.
Confuso? Sim, mas talvez seja essa a intenção do diretor, pois confusos também são os relacionamentos, mas nem por isso deixamos de nos relacionar com as pessoas, portanto não desista, passada a primeira meia hora do filme, você vai começar a se situar, e verá o "desbunde" que é esse filme (prá entender detalhes do filme, é preciso vê-lo mais de uma vez - e vale a pena, acredite).
Não dá prá falar muito sobre o filme sem revelar (e estragar) um ou outro segredo. Basicamente trata-se de uma dolorosa "brincadeira" com as nossas mentes e nossos corações - um casal cujo fim do relacionamento acabou em mágoas e brigas, procura (primeiro a mulher, depois ressentido, o homem) por uma clínica fictícia capaz de "apagar" toda e qualquer lembrança daquele relacionamento, com um simples programa de computação, que provoca uma "ablação" de toda conexão sináptica que estivesse vinculada a alguma recordação daquele relacionamento doloroso.
O "tratamento" para esquecer prá sempre o fulano de sua vida funciona prá ela (Kate Winslet de "Titanic") mas quando chega a vez dele (Jim Carrey "O máscara") inconscientemente ele reluta em se deixar "apagar", e por conta disso, vamos assistir a uma série de efeitos especiais e de câmera muito bem bolados (o muro e o drive-in desmoronando, a casa sendo inundada pela chuva, a "fuga" para locais remotos da memória sem lembranças) prá demonstrar a luta interior da mente (e do coração) contra aquela destruição da memória, e indiretamente das experiências vividas.
O diretor realizou um filme muito interessante, com uma imaginação fértil diante de um tema comum, numa abordagem aparentemente inimaginável mas, quem é que, ao sair de um relacionamento doloroso, não gostaria de poder apagá-lo prá sempre, poupando-nos de tanto sofrimento? Mas também nos questionamos (como o protagonista) se vale a pena apagar nossas experiências, mesmo as mais dolorosas, pois o aprendizado para uma nova relação talvez venha de uma dessas nossas experiências não tão bem sucedidas.
Essa é a temática desse filme, que conta também com outros bons atores (Mark Ruffalo do recente "Ensaio sobre a cegueira", Kirsten Dunst, a namorada do "Homem Aranha" e Elijah Wood de "O senhor dos anéis") que compõem o "time de profissionais" responsáveis pela "ablação" da memória do Jim Carrey e que, enquanto "apagam" o cara, vivem, sofrem e "apagam" seus próprios relacionamentos.
Aliás, se você (como eu) acha o Jim Carrey chatinho com aquelas caras e bocas repetitivas em seus filmes de comédia, vai se surpreender ao vê-lo irreconhecível num papel sério, compenetrado, sofrido e amargurado. Todo mundo vai reconhecer, no casal em questão, algum casal amigo (ou até a si próprio) pois os protagonistas são pessoas normais, dolorosamente normais, como todos nós.
O filme é um verdadeiro quebra-cabeças a ser montado, num mirabolante truque de imagens e efeitos (de câmera principalmente, prá quem curte cinema e seu "making of" é um "prato cheio") simulando a complexidade das relações e das nossas mentes (e claro, de nossos corações).
E a música "Everybody's gotta learn sometimes" cai como uma luva nas cenas de desespero e dor do protagonista, e a fotografia do filme é magnífica (principalmente as paisagens de inverno, da neve "substituindo" a areia em plena beira-mar).
"Brilho eterno de uma mente sem lembranças", um filme prá pensar e repensar. Não deixe de ver. Vale a pena.
Confuso? Sim, mas talvez seja essa a intenção do diretor, pois confusos também são os relacionamentos, mas nem por isso deixamos de nos relacionar com as pessoas, portanto não desista, passada a primeira meia hora do filme, você vai começar a se situar, e verá o "desbunde" que é esse filme (prá entender detalhes do filme, é preciso vê-lo mais de uma vez - e vale a pena, acredite).
Não dá prá falar muito sobre o filme sem revelar (e estragar) um ou outro segredo. Basicamente trata-se de uma dolorosa "brincadeira" com as nossas mentes e nossos corações - um casal cujo fim do relacionamento acabou em mágoas e brigas, procura (primeiro a mulher, depois ressentido, o homem) por uma clínica fictícia capaz de "apagar" toda e qualquer lembrança daquele relacionamento, com um simples programa de computação, que provoca uma "ablação" de toda conexão sináptica que estivesse vinculada a alguma recordação daquele relacionamento doloroso.
O "tratamento" para esquecer prá sempre o fulano de sua vida funciona prá ela (Kate Winslet de "Titanic") mas quando chega a vez dele (Jim Carrey "O máscara") inconscientemente ele reluta em se deixar "apagar", e por conta disso, vamos assistir a uma série de efeitos especiais e de câmera muito bem bolados (o muro e o drive-in desmoronando, a casa sendo inundada pela chuva, a "fuga" para locais remotos da memória sem lembranças) prá demonstrar a luta interior da mente (e do coração) contra aquela destruição da memória, e indiretamente das experiências vividas.
O diretor realizou um filme muito interessante, com uma imaginação fértil diante de um tema comum, numa abordagem aparentemente inimaginável mas, quem é que, ao sair de um relacionamento doloroso, não gostaria de poder apagá-lo prá sempre, poupando-nos de tanto sofrimento? Mas também nos questionamos (como o protagonista) se vale a pena apagar nossas experiências, mesmo as mais dolorosas, pois o aprendizado para uma nova relação talvez venha de uma dessas nossas experiências não tão bem sucedidas.
Essa é a temática desse filme, que conta também com outros bons atores (Mark Ruffalo do recente "Ensaio sobre a cegueira", Kirsten Dunst, a namorada do "Homem Aranha" e Elijah Wood de "O senhor dos anéis") que compõem o "time de profissionais" responsáveis pela "ablação" da memória do Jim Carrey e que, enquanto "apagam" o cara, vivem, sofrem e "apagam" seus próprios relacionamentos.
Aliás, se você (como eu) acha o Jim Carrey chatinho com aquelas caras e bocas repetitivas em seus filmes de comédia, vai se surpreender ao vê-lo irreconhecível num papel sério, compenetrado, sofrido e amargurado. Todo mundo vai reconhecer, no casal em questão, algum casal amigo (ou até a si próprio) pois os protagonistas são pessoas normais, dolorosamente normais, como todos nós.
O filme é um verdadeiro quebra-cabeças a ser montado, num mirabolante truque de imagens e efeitos (de câmera principalmente, prá quem curte cinema e seu "making of" é um "prato cheio") simulando a complexidade das relações e das nossas mentes (e claro, de nossos corações).
E a música "Everybody's gotta learn sometimes" cai como uma luva nas cenas de desespero e dor do protagonista, e a fotografia do filme é magnífica (principalmente as paisagens de inverno, da neve "substituindo" a areia em plena beira-mar).
"Brilho eterno de uma mente sem lembranças", um filme prá pensar e repensar. Não deixe de ver. Vale a pena.
Marcadores:
felicidade,
melancolia,
paixão,
relacionamento,
sensibilidade
terça-feira, 10 de novembro de 2009
"Magnólia", o filme
"Magnólia" é um filme totalmente inusitado em sua proposta de entrelaçar relacionamentos interpessoais, todos eles extremamente dolorosos. Todos nós, sem exceção, já vivemos direta ou indiretamente situações como a dos personagens. Ao começar a ler essa "crítica", você talvez vá querer desistir de continuar a lê-la (e principalmente vai querer desistir de ver o filme, ainda mais quando souber que tem duração de mais de três horas), porque no nosso íntimo, tendemos a fugir de sofrimentos, mesmo que alheios, ainda mais se podem nos fazer lembrar de um dos nossos.
Mas não, não desista. O filme é sobre relacionamentos problemáticos sim, entre casais, entre pais e filhos, entre profissionais, e aborda temas polêmicos como drogas, violência, incesto e homossexualidade (sutilmente, sem ser explícito nessas cenas), mas apesar de tudo, não é um filme pessimista, ao contrário, antes de qualquer coisa, o filme é sobre perdão, resignação e compreensão. O filme deixa como mensagem que é possível haver mudanças, que os encontros são possíveis, que é possível perdoar.
O filme ameniza o desespero e desencontros dos seus diversos personagens, com muita música ao fundo, como sucessos como os do Super Tramp ("Goodbye stranger") e de Aimee Mann ("Save me") e a cena inusitada dos próprios personagens cantando a música "Wise up" ao fundo - lembra um clipe - cada um iniciando uma estrofe da música, sendo retomada a letra pelo personagem seguinte (numa alusão a um silencioso encontro, conforto e cumplicidade entre os personagens) - veja a cena no final do texto.
O filme mostra um dia na vida de vários moradores dos arredores da rua Magnólia, em Los Angeles, num dia atípico naquela cidade (em geral ensolarada), chuvoso, com tempestades e ruas escuras, e vivenciaremos muitas histórias paralelas, aparentemente confusas, sem um fio condutor bem definido, mas que aos poucos se ligam e interligam num turbilhão de tramas aparentemente caóticas.
Um timaço de atores como Philip Seymour Hoffman (excelente como sempre), Tom Cruise (surpreende no papel de machista resignado) e Julianne Moore (brilhante atuação) estão à vontade nos seus papéis, apesar de todos os personagens ter contas a acertar com o passado e carregarem consigo fortes sentimentos de culpa, medos e arrependimentos.
Temas difíceis de digerir como morte, ódio, solidão, culpas, são como dardos pontiagudos que atravessam nossa carne, corroem nossa alma, mas é impossível não vivenciá-las, faz parte da vida, assim como a esperança, o perdão e os sonhos.
"Magnólia" não é um filme fácil de explicar, é um filme prá ver e rever para captar os detalhes e as mensagens contidas (e escondidas) em suas cenas dinâmicas, ágeis em jogos de cenas (por isso as mais de três horas passam rápido), cheias de cortes rápidos e bruscos, de zooms e de referências bíblicas e históricas.
A cena da estranha chuva de sapos (há cartazes "escondidos" no filme em referência ao texto bíblico do "Êxodo" - tente achá-los) é uma referência aos milagres e "acasos" da vida, numa alusão de que, se é possível "chover sapos" (o menino em sua inocente crença repete insistentemente, vendo de sua janela os sapos caindo do céu, "isso acontece, isso realmente pode acontecer"), então também pode-se acreditar em milagres e no perdão,
e essa cena aparentemente absurda (a chuva de sapos), que poderia ser "um castigo de Deus", nos mostra que, às vezes, por meio de situações dramáticas e absurdas, podemos encontrar o verdadeiro sentido das coisas (será que Deus escreve mesmo certo, por linhas tortas?).
E por causa da chuva de sapos, milagres e "acasos" acontecem com os personagens, e a redenção final se dá no sorriso discreto, mas confiante, no rosto da personagem vítima de incesto e viciada em cocaína, lavando nossa alma de confiança e esperança de que dias melhores virão.
Pesado, mas tocante e encantador. Não deixe de ver. Eu recomendo.
Mas não, não desista. O filme é sobre relacionamentos problemáticos sim, entre casais, entre pais e filhos, entre profissionais, e aborda temas polêmicos como drogas, violência, incesto e homossexualidade (sutilmente, sem ser explícito nessas cenas), mas apesar de tudo, não é um filme pessimista, ao contrário, antes de qualquer coisa, o filme é sobre perdão, resignação e compreensão. O filme deixa como mensagem que é possível haver mudanças, que os encontros são possíveis, que é possível perdoar.
O filme ameniza o desespero e desencontros dos seus diversos personagens, com muita música ao fundo, como sucessos como os do Super Tramp ("Goodbye stranger") e de Aimee Mann ("Save me") e a cena inusitada dos próprios personagens cantando a música "Wise up" ao fundo - lembra um clipe - cada um iniciando uma estrofe da música, sendo retomada a letra pelo personagem seguinte (numa alusão a um silencioso encontro, conforto e cumplicidade entre os personagens) - veja a cena no final do texto.
O filme mostra um dia na vida de vários moradores dos arredores da rua Magnólia, em Los Angeles, num dia atípico naquela cidade (em geral ensolarada), chuvoso, com tempestades e ruas escuras, e vivenciaremos muitas histórias paralelas, aparentemente confusas, sem um fio condutor bem definido, mas que aos poucos se ligam e interligam num turbilhão de tramas aparentemente caóticas.
Um timaço de atores como Philip Seymour Hoffman (excelente como sempre), Tom Cruise (surpreende no papel de machista resignado) e Julianne Moore (brilhante atuação) estão à vontade nos seus papéis, apesar de todos os personagens ter contas a acertar com o passado e carregarem consigo fortes sentimentos de culpa, medos e arrependimentos.
Temas difíceis de digerir como morte, ódio, solidão, culpas, são como dardos pontiagudos que atravessam nossa carne, corroem nossa alma, mas é impossível não vivenciá-las, faz parte da vida, assim como a esperança, o perdão e os sonhos.
"Magnólia" não é um filme fácil de explicar, é um filme prá ver e rever para captar os detalhes e as mensagens contidas (e escondidas) em suas cenas dinâmicas, ágeis em jogos de cenas (por isso as mais de três horas passam rápido), cheias de cortes rápidos e bruscos, de zooms e de referências bíblicas e históricas.
A cena da estranha chuva de sapos (há cartazes "escondidos" no filme em referência ao texto bíblico do "Êxodo" - tente achá-los) é uma referência aos milagres e "acasos" da vida, numa alusão de que, se é possível "chover sapos" (o menino em sua inocente crença repete insistentemente, vendo de sua janela os sapos caindo do céu, "isso acontece, isso realmente pode acontecer"), então também pode-se acreditar em milagres e no perdão,
e essa cena aparentemente absurda (a chuva de sapos), que poderia ser "um castigo de Deus", nos mostra que, às vezes, por meio de situações dramáticas e absurdas, podemos encontrar o verdadeiro sentido das coisas (será que Deus escreve mesmo certo, por linhas tortas?).
E por causa da chuva de sapos, milagres e "acasos" acontecem com os personagens, e a redenção final se dá no sorriso discreto, mas confiante, no rosto da personagem vítima de incesto e viciada em cocaína, lavando nossa alma de confiança e esperança de que dias melhores virão.
Pesado, mas tocante e encantador. Não deixe de ver. Eu recomendo.
Marcadores:
medo,
melancolia,
sensibilidade
Assinar:
Postagens (Atom)